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CULTURA REVISTA LITERATURA 

Entre rugas e reinícios: Fernanda Pompeu escreve o envelhecimento como território de descoberta

Por Cibele Laurentino

Esse livro não se propõe a falar sobre o tempo, ele é mesmo raro, escolhe enfrentá-lo. Fernanda Pompeu, nos traz  um romance que transforma o envelhecimento em matéria viva, pulsante, longe de qualquer clichê de finitude. Aqui, envelhecer não é declínio.

A protagonista, Olívia, uma jornalista aposentada, recebe uma proposta que parece simples à primeira vista: escrever sobre o envelhecimento. Mas o que se desenha a partir dessa encomenda é um mergulho denso e delicado nas camadas do existir. Entre lembranças da infância, marcas recentes no corpo e silêncios que pesam mais do que qualquer dor física, Olívia percorre não apenas as ruas da cidade, mas também os territórios íntimos da memória e da percepção.

A narrativa se constrói em movimento. Há o tempo que escorre  rápido, inevitável,  e há o tempo que se expande dentro da personagem, permitindo revisitar afetos, revisões e esquecimentos. Ao mesmo tempo em que observa rostos e comportamentos nas redes sociais, Olívia se confronta com o que ainda pulsa em si, desafiando a ideia de que a velhice é sinônimo de apagamento.

Fernanda Pompeu demonstra domínio ao tensionar passado e presente sem recorrer à nostalgia fácil. Sua escrita é consciente de que o envelhecer não é uniforme, tampouco linear. Pelo contrário: trata-se de um processo múltiplo, atravessado por contextos sociais, afetivos e culturais. A autora desloca o olhar do corpo que envelhece para a experiência que se transforma  e, nesse gesto, humaniza aquilo que muitas vezes é tratado com silêncio ou medo.

Mais do que uma narrativa sobre o tempo, o livro se impõe como uma reflexão sobre a permanência do desejo, da curiosidade e da criação. Olívia, com sua “pena livre de encomendas”, torna-se símbolo de uma autonomia tardia  ou talvez inaugural  que questiona os limites impostos às mulheres ao longo da vida.

Carioca, filha de Nete e Marcus, Fernanda Pompeu se apresenta como “uma inteligência biológica da espécie homo sapiens sapiens”, consciente das tensões entre humanidade e tecnologia, experiência e simulação. Essa consciência atravessa sua escrita, que se ancora tanto no vivido quanto no imaginado, sempre atenta às possibilidades e fragilidades da condição humana.

Autora de “64” coletânea de microcontos sobre as sequelas da ditadura militar publicada pela Brasiliense, e de O Escriba Errante, autoficção lançada pela Labrador, Pompeu reafirma, nesta nova obra, sua vocação para investigar temas sensíveis com profundidade e rigor estético. Agora, ao voltar-se para a diversidade dos envelhecimentos, amplia o debate e convida o leitor a revisitar suas próprias ideias sobre tempo, corpo e existência.

No fim, o que permanece é uma pergunta que ecoa para além das páginas: e se envelhecer não for o fim de uma história, mas apenas outra forma de começá-la?

A obra pode ser adquirida diretamente com a autora, por meio do perfil no Instagram: @fernandapompeu.escriba

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